ESTRANHA BAHIA NO RÁDIO

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Ricardo Santos, um dos organizadores de nossa antologia, participou, na Rádio Showtime, do programa O Marco de Hoje, comandado por Marco Antonio Santos Freitas. Ricardo falou um pouco sobre suas preferências literárias e na cultura pop em geral, novos autores e, claro, da Estranha Bahia. Na primeira metade do programa, há uma deliciosa seleção de canções dos anos 50 a 80, que tinham tudo para fazer sucesso, mas não decolaram. A entrevista começa em 35:10. Para ouvir o programa é só clicar na imagem.

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ESTRANHA BAHIA, ELEITO UM DOS MELHORES LIVROS DE 2016

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Estamos chocados! Nossa antologia foi selecionada por César Silva, uma das maiores autoridades em ficção especulativa no país, como um dos LIVROS ESSENCIAIS DE 2016, AUTORES BRASILEIROS. O blog de César tem de ser acompanhado por todos que se interessam pela fatia do nosso mercado editorial voltada para FC, fantasia e terror. Ele é um analista atento e sincero. Por isso, suas avaliações têm tanto peso. Estamos muito orgulhosos de nossa equipe tão talentosa (Alec Silva, Rochett Tavares, Ricardo Santos, Nanuka Andrade, Isabelle Neves, Evelyn Postali, Tarcísio Silva, Alexandre Alex Mendes, Cristiane Schwinden), que transformou uma ideia vaga em algo muito concreto e especial. A edição física está esgotada, mas a versão em e-book está disponível na Amazon. Leiam e digam pra gente o que acharam.

NOSSO LIVRO CHEGOU!

A tiragem teste da versão impressa de nossa antologia já chegou! No geral, ficamos muito contentes com o trabalho da gráfica, mas existem pequenos ajustes a fazer para tudo ficar perfeito. Nos próximos dias, faremos o pedido de uma segunda tiragem para enviar todos os livros e recompensas aos apoiadores de nossa campanha no Kickante, autores e compradores pré-venda. Confiram algumas fotos da edição. O que acharam?

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ESTRANHA BAHIA: LANÇAMENTO

capa completa estranha bahia

Estranha Bahia é uma antologia inspirada nas revistas pulp de terror, fantasia e ficção científica norte-americanas, que tiveram sua maior produção entre o final do século 19 e a década de 1950. A chamada pulp fiction tinha esse nome por causa do papel barato com o qual suas páginas eram produzidas. Estas revistas custavam centavos de dólar e eram conhecidas por suas histórias de apelo bem popular. Apesar da qualidade duvidosa de muitos contos publicados, a pulp fiction foi responsável por revelar grandes autores da fantasia, da ficção científica e do policial, praticamente fundando as versões modernas de tais gêneros.

Nossa proposta foi editar, de forma pioneira, uma antologia de contos de terror, fantasia e ficção científica com ambientação na Bahia.

O projeto conta com sete autores, dentro e fora do Estado. São histórias de maior fôlego, algumas sendo noveletas. As abordagens são bastante variadas. Misturam suspense, drama, policial, comédia, aventura e romance.

O objetivo da antologia é mostrar, por meio da ficção, uma Bahia além dos clichês e estereótipos, mas sem esquecer nossa cultura, o jeito de ser baiano.

OS CONTOS:

CANUDOS XXI, DE ISABELLE NEVES: Na Canudos de 1997, cem anos depois do fim da famosa guerra, um menino tem de enfrentar a Morte para proteger as pessoas de sua comunidade.

EM BUSCA DA DISGRAÇA DA PEDRA AZUL, DE CRISTIANE SCHWINDEN: Conto de fantasia épica, uma divertida versão da jornada do Escolhido.

ENTERRADOS A RESPIRAR, DE ALEXANDRE CTHULHU: Um turista português chega à Bahia para executar um assustador plano de vingança.

JOEL DAS ALMAS, DE EVELYN POSTALI: Durante a folia de carnaval, um exorcista recorda fatos extraordinários do seu passado e se depara com um poderoso inimigo no presente.

O PROFETA DO 666, DE TARCÍSIO JOSÉ DA SILVA: Um homem tem de lidar com o horror e o erotismo no quarto de uma velha pensão.

RAÇAS, DE RICARDO SANTOS: Numa Salvador do futuro, onde humanos e uma raça alienígena convivem abertamente, um policial humano investiga o assassinato de um criminoso alien.

QUIBUNGO, DE ROCHETT TAVARES: Na Bahia do séc. XVII, um escravo fugido se alia a um misterioso guerreiro maia. Eles são perseguidos por um implacável capitão-do-mato e seu bando, enquanto buscam artefatos místicos que estariam na entrada para o reino dos mortos, a partir de um mapa tatuado na carne do maia.

Organização Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares, 202 págs., 16cm x 23cm, orelha 07cm, EX! Editora.

Lançamento do e-book na Amazon (segunda quinzena de março de 2016)

Lançamento da edição impressa (segunda quinzena de abril de 2016)

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RAÇAS: LEIAM UM TRECHO

raças

Inspirado em autores como Philip K. Dick, Isaac Asimov e John Scalzi, o conto Raças mistura ficção científica e trama policial. Numa Salvador do futuro, humanos convivem abertamente com uma raça alienígena. Um policial humano, que faz bicos como investigador particular, é contratado para descobrir quem matou um criminoso alien. Diferenças culturais, preconceito, corrupção. Ninguém é inocente, até que se prove o contrário. Leiam um trecho:

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Início da gravação 8-B, 23 de outubro de 20… 01:19 AM

Fiquei de me encontrar com Lupo na Avenida Sete, na Praça da Piedade. Era um dia quente dos infernos, doutora. Eu rezava pro infeliz não se atrasar demais. Eu corria contra o relógio.

Gosto de ser pontual em meus compromissos. O pessoal do DP diz que essa é mais uma das minhas esquisitices. Falam coisas sobre mim, na minha cara. Mas as ofensas de verdade só pelas minhas costas. Fico sabendo de algo, mais cedo ou mais tarde. Carlão é o único que fala o que realmente pensa, olhando no meu olho. Ele me odeia. Qualquer dia desses, ele pode armar uma pro meu lado. Talvez até armar uma treta fortíssima e me dar um tiro na nuca… Que porra fiz ao cara? Não faço ideia, sério…

Bateu a sede.

Fui até um carrinho de água de coco, perto do gradil que cerca a praça.

“O que vai ser, chefe?”, disse o vendedor. Um sujeito franzino com uma expressão esperta, mas cauteloso.

“Um copinho bem gelado.”

Ele tinha sacado que eu era polícia?

Eu não usava óculos escuros. Vestia uma camisa de flanela folgada e calça jeans. Minha arma estava escondida na cintura.

Não costumo passar pela região a pé.

O vendedor me entregou um copo plástico gelado.

Uma garota de traços orientais, talvez coreana, talvez chinesa, passou por mim, me encarou. Parecia uma bonequinha de marmanjo. Daquelas, doutora, que os caras pagam não sei quantas prestações para adquirir as esposas mais obedientes e taradas do mercado.

Seus olhos eram púrpuros.

Ela não usava lentes de contato… Ou seria mais um daqueles idiotas que imitam os eladianos, usando lentes púrpuras?

Eu ainda não tinha bebido uma gota da minha água de coco.

Virei o copo de vez.

Amassei o copo e o joguei no cesto de lixo acoplado no carrinho.

Uma senhora se aproximou.

“Eu quero uma garrafinha.”

O vendedor a atendeu.

Tirei meu smarty do bolso da calça. Conferi as horas pela segunda vez desde que tinha chegado.

Lupo estava atrasado nove minutos.

Eu me sentia um alvo fácil. De pé, em silêncio, apenas observando. Enquanto a maioria das pessoas se movimentava pra lá e pra cá, na lerdeza ou às pressas. Até quem estava parado fazia algo útil, como vender suas mercadorias ou jogar conversa fora.

Chequei minhas mensagens. Nenhuma era de Lupo. Aquele filho da puta. Desculpe, doutora… Ele sabia que estava me devendo. Ele não era maluco de furar comigo.

O vendedor atendeu um casal de estudantes.

Reparei que o garoto e a garota usavam aqueles aparelhos em forma de pulseira, em que a tela é projetada no braço da pessoa, um holograma. Sumaya, minha filha, já quis me dar um desses. Eu disse não, obrigado. Seria pedir demais da minha rabugice.

Então meu smarty vibrou.

Era uma mensagem de Lupo: taxi corolla vidro preto.

Coloquei o smarty de volta no bolso, saquei minha carteira e paguei o vendedor.

“Fique com o troco”, eu disse, meio apressado.

“Valeu, chefe.”

O vendedor não pareceu surpreso com meu gesto.

Se ele soubesse que eu era polícia, não esperaria pagamento nenhum. A água de coco seria uma cortesia forçada.

Fui pra ponta do passeio. Tentei avistar o tal táxi.

Foi naquele ponto da praça que combinamos de nos encontrar.

O trânsito estava pesado, lento, mas não a ponto de travar tudo.

Era por volta das dez da manhã.

Passei a mão na testa pra limpar o suor em excesso.

Estava atento à movimentação dos carros. Então percebi quando um Corolla, todo laranja, com listras laterais em vermelho e azul, saiu da faixa do meio, ágio, indo pra faixa da direita. Acompanhou o fluxo mais livre, parou, seguiu devagar, depois acelerou o que pôde, ganhando terreno em segundos. Até parar quase ao meu lado, só um pouco mais na frente.

Os vidros eram completamente escuros, inclusive o para-brisa.

Dei alguns passos pra ficar lado a lado com o táxi.

A calçada tinha um passeio alto.

Não dava pra ver ninguém dentro do táxi.

Senti um friozinho na barriga. Paranoia de policial.

O vidro do carona desceu. Não reconheci o homem que apareceu na janela. Mas, no momento seguinte, fiquei mais tranquilo ao perceber que Lupo estava ao volante.

Ele também me encarou, avançando a cabeça, fazendo um esforço pra ser visto por mim.

“Entra aí, doido”, ele disse, em sua voz gasta de fumante.

Desci na pista e abri a porta traseira. Entrei no táxi.

Senti o friozinho do ar-condicionado.

E a pressão da minha arma nas costas contra o banco.

O rádio estava sintonizado numa emissora qualquer, o locutor falando sobre as notícias do dia.

“Não vai estourar comigo, vai?”, Lupo disse, olhando pra mim pelo retrovisor interno. Depois olhou pro seu retrovisor, aguardando uma brecha no trânsito pra ir embora.

“Relaxe, cara. Você tá me fazendo um favor, não tá?”

Nossos olhares se encontraram no retrovisor interno. Parecia que tudo estava resolvido entre a gente.

“Esse aqui é meu irmão”, Lupo disse, checando mais uma vez o trânsito pelo seu retrovisor.

O tal irmão virou a cabeça.

“E aí?”, ele disse.

“Tudo certo”, respondi.

Lupo arrancou com o táxi.

“Detetive, você sabe que seu smarty foi provisoriamente desativado.”

O tom de Lupo era de pura ironia.

Paguei a ironia com um sorriso de canto de boca.

Era o lance da possibilidade de rastreamento, doutora.

Sim, eu sabia que o táxi tinha algum dispositivo que bloqueava o sinal de qualquer smarty. Na verdade, de qualquer aparelho invasor. Mesmo desligado, meu smarty não podia ser rastreado.

Provavelmente, o rádio funcionando era a chave do mistério.

Mexi o corpo, fui sentar bem no meio do banco. Assim eu teria uma melhor visão dos meus companheiros de viagem.

“Depois dessa, você vai ficar um bom tempo sem me pedir um favor, detetive.”

Lupo tentava dar atenção ao trânsito e, pelo retrovisor interno, a mim.

“Fique tranquilo. Sei muito bem qual é o preço do meu favor.”

“Cara, isso envolve os transparentes, os turistas, vocês da cana. É muita coisa numa confusão só.”

Lupo conseguiu espaço pra entrar na faixa da esquerda.

O barulho e a luminosidade da rua praticamente ficaram do lado de fora. Estávamos quase em outro mundo. Uma bolha de conforto e segurança.

O táxi era o escritório de Lupo. Na verdade, ele tem dois ou três carros adaptados como aquele. Que eu saiba. Um bem diferente do outro.

“Eu quero ouvir a história. Só isso.”

O irmão de Lupo se mexeu no assento. Senti que estava nervoso.

Ele era mais jovem. Não tinha a mesma fisionomia de Lupo. Provavelmente eram meios-irmãos. Filhos de algum bicho solto no mundo.

Três caras negros dentro de um carro. Motivo suficiente para qualquer blitz da PM mandar encostar. Mesmo sendo um táxi.

Só não era pior do que três eladianos dentro de um carro.

Lupo parou na entrada de uma ruela. Esperou alguns pedestres passarem. Então se enfiou naquele lugar estreito, meio em declive. Fomos dar na Avenida Carlos Gomes.

Na minha opinião, doutora, o Centro de Salvador é um museu bizarro a céu aberto. Mistura de decadência com uma modernidade de plástico, de péssimo gosto.

Avançamos na avenida sem qualquer problema. Naquele instante, naquela faixa, o trânsito estava livre. Até nos misturarmos ao resto dos carros, ônibus e motos que vinham na retaguarda.

“O que vocês têm pra mim?”

O irmão de Lupo olhou pra ele. Lupo fingia só estar interessado no trânsito.

“Conta”, Lupo soltou, finalmente.

O irmão pigarreou.

Enquanto contava a história, ora ele se virava pra trás, na minha direção, ora voltava pra encarar o para-brisa escuro.

A programação do rádio, um misto de músicas, notícias e propagandas, não aborrecia, não atrapalhava.

“Cara, isso eu ouvi de um cliente meu, ontem. Ele mora num condomínio de mansões no Caminho das Árvores.”

“Qual o nome do seu cliente?”

“Pra que dizer o nome do cara? Você vai mexer com ele?”

O irmão me encarou com uma expressão de poucos amigos.

“Deixa pra lá.”

“Como eu tava dizendo… esse meu cliente viu uma movimentação estranha no condomínio, durante a madrugada da segunda-feira. Por coincidência, ele não tava chapado naquela noite. Tava bêbado, mas deu pra ver o que acontecia do lado de fora. Parece que mais ninguém notou o que tava rolando.”

“Ou alguém mais também viu e não quer abrir a boca.”

“Não interessa. Você quer ouvir a história, certo?”

O irmão me encarou.

“Prossiga.”

Fechei a cara. Aquela figura começava a me irritar, doutora.

A expressão de Lupo estava tensa. Ele tentava, ao mesmo tempo, ser um ouvinte e um motorista atento.

Ele entrou no Largo dos Aflitos. Iríamos pra Cidade Baixa, pensei na hora. Eu queria saber que zorra íamos fazer por lá. Mas deixei o assunto quieto.

“Meu cliente tava com uma prima. Ele é engenheiro. Na hora, ele não tava chapado. Senão não dava pra comer a menina direito.”

“Não enrola.”

Lupo encarou o irmão, esquecendo por dois segundos a ladeira íngreme que descíamos.

Também por dois segundos fiquei apreensivo, com medo de acontecer um acidente.

Os dois idiotas travaram uma rápida batalha de nervos, um encarando o outro.

“Tá bom”, disse o irmão, aborrecido.

Lupo voltou a prestar atenção à ladeira.

O irmão continuou:

“Teve uma hora que meu cliente foi até a parede envidraça da sala da mansão, que fica no primeiro andar. A parede dá pra rua de acesso do condomínio. As cortinas tavam abertas, mas a casa tava às escuras. Ele tava bêbado, pensando não sei o que da vida, talvez como ele era um merda, privilegiado, mas um merda, quando ouviu um som medonho e agudo… ele me disse exatamente isso: medonho e agudo… Algo que ele nunca tinha ouvido antes…”

Lupo alcançou a Avenida Contorno. Mesmo interessado na história, eu tive que virar a cabeça e dar uma checada no mar brilhando lá embaixo, a perder de vista. Nunca me canso de apreciar aquele marzão.

“Ele não soube sacar de onde exatamente tinha surgido o grito. Olhou pra um lado e pro outro pela vizinhança, mas nada. A rua de acesso do condomínio tava deserta. Apenas três ou quatro casas tavam com as luzes acesas, mas não dava pra ver ninguém. Nenhuma casa ali tem muro na frente…

“Ele poderia ter voltado correndo pro quarto pra junto da prima, mas a curiosidade foi mais forte. Quase acendeu um cigarro, mas acabou se tocando que seria puro vacilo. Ele não tinha muita noção do tempo, afinal tava bêbado. Ele não sabia direito quanto tempo levou até perceber uma movimentação três casas à sua esquerda, do outro lado da rua…

“A casa tinha um largo portão na garagem. O portão se levantou. Lá dentro, uma Mercedes com os vidros completamente escuros deu a partida, acendeu os faróis e saiu, meio às pressas… Não deu pra ver quem era o motorista, ou se tinha mais alguém junto… Ele percebeu que as luzes da casa continuaram acesas. Achou até que viu uma movimentação lá dentro… Ele esperou, esperou, esperou pra ver se acontecia mais alguma coisa… Aí meu cliente perdeu o interesse e voltou pro quarto pra continuar bebendo e trepar…”

“Esse seu cliente viu a Mercedes de novo?”, perguntei.

“Não, nunca mais.”

“Placa do carro?”

“Tá viajando, cara.”

“Mas seu cliente sabe quem é o dono da casa.”

O irmão deu um sorrisinho.

“Um tal de Bruno Villa Corrêa, um advogado.”

EM BUSCA DA “DISGRAÇA” DA PEDRA AZUL: LEIAM UM TRECHO

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Cristiane apresenta o conto mais divertido de nossa antologia. Em Busca da “Disgraça” da Pedra Azul é uma paródia da jornada do herói, contada com muito baianês. Leiam um trecho:

— Que pipoco foi esse? — Filipa bradou, dando um pulo em sua cama, largando o livro de História.

— Lezinho, corre lá pra ver o que foi isso! — ouviu sua mãe berrando da cozinha.

Filipa saiu descalça para ver a origem do estrondo. Parou ao lado do seu irmão mais novo, Uéslei, atrás do muro de sua casa. Uma fina camada de garoa caía sobre seus ombros.

— Estourou o transformador — ele disse, olhando boquiaberto para o poste, onde uma grande caixa metálica estava agora enegrecida pela explosão.

— Foi raio? — Filipa perguntou. O dia estava nublado e mais cedo naquela tarde ela ouvira trovões ao longe.

— Sei lá que porra foi essa.

— Vem, sai da chuva. — Ela arrastou seu irmão mais novo pelo braço.

Entrou novamente em seu pequeno quarto de paredes esverdeadas, que dividia com sua irmã mais velha, Marcela, e seu sobrinho, Camilo. Era uma casa na Barroquinha, simples, de três cômodos. O telhado sempre vazava em dias de chuva.

— Como vou estudar nesse escuro, mainha?

— Por que não vai para a biblioteca estudar? Chame seu amigo.

— Filipa tá de namorico com o Fabiano! Tá de namorico! — Uéslei passou ao seu lado, levando um sonoro tapa na orelha de sua irmã.

— Cala a boca, moleque!

Meia hora depois, Filipa entrava sacudindo os cabelos que foram molhados pela garoa. Seu amigo já a esperava em uma das mesas da Biblioteca Central, nos Barris.

— Faltou luz lá em casa também — ele disse, abrindo o livro à sua frente.

— Vão arrumar aquele poste só na quinta-feira, quer apostar?

— Duvido nada, nem sei como essa biblioteca tá aberta numa segunda-feira de carnaval.

— Merda. — Filipa olhava para as mãos, inconformada.

— Que foi?

— Esqueci o livro em casa.

— Porra, Fi, que fuleira você. Vai buscar? — ele disse, colocando seus cachinhos para trás da orelha.

— Não, deve ter livro sobre história do Brasil nessa biblioteca.

— Sei não se vai ter especificamente sobre as religiões afro na época colonial.

— Não custa procurar. Sair nessa chuva pra buscar um livro é muito miserê.

Filipa caminhava lentamente pelos corredores de estantes, procurando pela seção de história do Brasil. Encontrou-a no final da sala.

Corria os dedos pela lombada dos livros, lendo com a cabeça inclinada de lado, compenetrada.

— Achei vosmecê! — uma voz grossa bradou ao seu lado.

Filipa deu um pulo assustada, soltando um gritinho.

Um homem alto, de pele negra e lábios grossos, a encarava sorridente. Ele usava uma camisa branca de algodão. Ao invés de botões havia cordões transpassando os pequenos furos. Em cada pulso havia um grilhão de metal, ainda com alguns elos de corrente presos. E estava descalço.

— Shhhh, seja discreta, senhorinha — o homem falou, aproximando-se.

— Você me conhece? — Ela o olhava, espantada.

— Agora sim. Meu nome é Agenor, homem livre desde 1876, ao deu dispor. — Ele curvou-se numa reverência.

Filipa, já recuperada do susto, o fitava dos pés à cabeça.

— Você tá fazendo algum cosplay de Escrava Isaura?

— Isaura? Eu conheci uma Isaura, mas ela também era uma mulher livre.

— Já sei, tá rolando uma peça de teatro sobre a história do Brasil aqui por perto. Você é ator? Porque se tiver rolando eu adoraria ver, me pouparia de algumas horas de estudos para a prova de quinta-feira.

— Senhorinha, nosso tempo é curto, portanto ouça com atenção sobre sua nobre incumbência.

— Quê?

— Vosmecê precisa encontrar a pedra azul antes que o grande Melvin a encontre.

Filipa apenas o observou, muda.

— Pela sua expressão imagino que não saiba do que estou falando — Agenor continuou.

— Pedra azul? Acho que você está me confundindo com alguém, eu não vendo crack.

— Escute, painho me avisou que eu teria sua incredulidade num primeiro momento. Então ele autorizou que eu usasse o pó de sacandúvia em vosmecê.

— Pedra, pó… Moço, não tenho tóxicos, então eu acho… — Agenor a interrompeu, soprando um pó brilhante na direção do rosto de Filipa.

— Pode ouvir o restante das orientações agora? — ele indagou, guardando o pequeno saco verde aveludado no bolso.

— Sou toda ouvidos.

A própria Filipa achou estranhou ela concordar com o velho tão facilmente. Ela piscou algumas vezes. Ela viu pontinhos brilhantes bem na sua frente se apagarem.

— Melvin, o feiticeiro de Alfotrix, fugiu das profundezas da Chapada Diamantina ontem e saiu numa busca implacável pela pedra azul. E vosmecê sabe o que ele poderá fazer com esta pedra?

— Sei não — ela respondeu ingenuamente.

— Transformar pessoas em zumbis.

— Tipo The Walking Dead?

— Não sei o que é isso, mas ele teria um exército de zumbis obedientes apenas às ordens dele.

— Por que não guardam essa pedra azul num cofre de banco?

— Não sabemos onde a pedra encontra-se. Precisamos da sua ajuda, precisamos que um mortal faça essa busca.

— E eu sou a escolhida? Tenho algum poder mágico?

— Ahn… Na verdade, não.

— Por que você tá me dando essa missão então, misera?

— Painho foi com sua cara. Quem você acha que jogou aquele raio no poste em frente à sua casa?

— Diga a painho que agradeço a preferência. Agora me fale por onde começo essa busca. Se eu me retar, largo de mão e vou estudar pra minha prova.

— Ladeira do Curuzu, casa número cinquenta.

— A pedra está lá?

Agenor riu, expondo seus belos dentes.

— Quem dera. Esteve lá por muito tempo. Mariano, o guardião, a mantinha em sua casa sem maiores receios, porque Melvin estava preso. Quando sentiu que sua morte estava próxima, ele guardou a pedra em outro lugar e não nos disse onde. Mas como Mariano era um grande contador de anedotas, acreditamos que ele tenha deixado enigmas que levem até o paradeiro final da pedra. Esta é sua missão; seguir e desvendar os enigmas.