JOEL DAS ALMAS: LEIAM UM TRECHO

joel

Evelyn Postali se deu um intrigante desafio em seu conto Joel das Almas. Escrever uma história assustadora passada em plena alegria do carnaval de Salvador. E funciona que é uma beleza. Leiam um trecho:

Observo a rua como se ela fosse diferente daquela que está sempre presa na superfície do olhar. As pessoas vivem o tempo todo num modismo veloz e vazio, mas os mistérios da rua estão constantemente aí. O movimento de gente é um vai-e-vem desconexo, mais frenético em determinadas épocas do ano e em alguns dias específicos do mês; e, ao mesmo tempo, estranho, surpreendente. Quase me encanta e arrebata o branco calcinado das casas, os beirais desgastados, aquele excesso de brilho da calçada. Enquanto espero o momento acontecer, me alimento daquela peculiar vista da janela da sala em minha modesta casa; moradia de meus pais, herdada por mim, único filho.

Eu vejo o rapaz subir pela rua. O sol escalda os miolos apesar da hora. Não há árvores para aliviar os transeuntes daquele bafo. Saio e espero que a cena aconteça. Fico escorado na parede tingida de azul, cor escolhida a dedo por mim, ainda na juventude. Ela, a garota que o aguarda, já está ali faz pouco mais de quinze minutos, impaciente, aguardando à sombra da farmácia do Juca, perto da escada de dois degraus. Posso sentir daqui a ansiedade, a aflição amorosa. É agonia o que se sente quando se espera, especialmente no amor. Apesar da minha pouca experiência no quesito amoroso, sei que não é diferente em idade alguma, essa ansiedade da espera pelo ser amado.

— Pensei que não viesse — a moça diz para o rapaz. Eles estão bem à minha frente. — Estou aqui há um bocado de tempo.

— Vim devagar, pela rua de baixo. O movimento é grande — ele respondeu. — A cidade parece que enlouquece nessa época do ano.

— São os turistas que trazem a agitação — ela o beijou com carinho. — Como foi o seu dia?

As mãos se juntam e eles seguem sorridentes, em silêncio, na mesma direção que eu, mas em passadas mais tranquilas do que as que me levam. O final da tarde anuncia uma noite quente típica e meus passos são firmes.

É um contínuo carnaval na minha cabeça nessa época do ano. Não importa quão tediosa ou angustiante é a expectativa por algo que, se sabe, acontecerá. É inevitável o tempo todo.

Carnaval é algo para festejar e não poderia ser diferente. E eu que não me envolvia diretamente com as festividades acabei me afeiçoando. Afinal, o que fazer com o tempo ocioso senão celebrar o momento que se vive de uma maneira descontraída? Não é sempre que se tem a chance de sentir-se parte de algo realmente importante. Foi numa época de carnaval, aos oito anos, que meu destino selou-se depois de uma conversa séria com meu pai. Eu fecho os olhos e revivo a cena tão nítida como se estivesse acontecendo hoje.

— Isso é para você, Joel. — Ele entregou-me o colar de contas de cor turquesa, adornado também com conchas pequenas. Pendurado no cordão, tinha uma medalha de latão com umas inscrições estranhas e um pequeno saquinho de tecido grosso dourado, costurado com linha branca.

— O que são? Letras? — Lembro-me de como perguntei intrigado sobre os rabiscos na medalha. Se fossem letras, eram diferentes das que tinha aprendido na escola. Fugiam de minha compreensão. O semblante duro atenuou. Minha esperteza fez meu pai sorrir e fazer as rugas no lado dos olhos ficarem mais evidentes. O branco dos dentes perfeitos apareceu para me certificar da felicidade que ele sentia quando eu estava ao seu lado.

— Isso — mostrou-me indicando o pequeno embrulho. — É um patuá de Logunedé. Grande feiticeiro, ele carrega a terra e a água. É seu protetor. Ele é uma tríade. Três protetores em um, Joel. — Depois, virou a pequena peça de latão de um lado para outro. — Isso aqui é uma medalha, uma espécie de amuleto também. O que você vê nela são símbolos que nomeiam e representam o arcanjo Miguel. Um sigilo. Michael Saday Athanatos Sabaoth. — As palavras foram ditas com calma. — Tudo isso é para guiar seu caminho e proteger você, filho.

— Vai me proteger do quê? — perguntei meio sorrindo, meio decepcionado, porque meu pai era meu protetor, uma espécie de herói. A força que via nele dificilmente via em outros homens. Estar ao lado dele me bastava para sentir segurança.

Meu pai tinha aquele jeito de contemplar o horizonte quando estava na beira do mar, que fazia o olhar castanho ser invadido pelo azul daquelas águas e tomar uma tonalidade muito diferente de tudo o que eu conhecia. Tinha uma ligação com aquele mundo de mar que enciumava minha mãe. Ele levantou da areia, daquela parte perto das pedras, e voltamos para o meio da folia, dançando com a pequena multidão que se arrastava ao som dos músicos pelos caminhos da Cidade Baixa. Fantasias coloridas, fitas, risos soltos. A agitação de corpos num ritmo feliz. A batida dos tambores acompanhando o coração.

Foi nesse exato carnaval, quando ganhei o colar no oitavo aniversário, que as sombras de um mundo estranho e diferente apresentaram-se a mim, erguendo-se dos lugares mais improváveis e atentando contra minha lucidez. Imagens de pessoas e acontecimentos tão reais quanto o primeiro beliscão que dei em mim, tentando acordar daquilo que parecia ser um pesadelo.

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